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Filosofia Moderna: A redução de tudo ao nível infantil

Ilustração de um acadêmico sentado no chão construindo um arco com blocos de madeira com as palavras "Natureza" e "Cultura". Ao fundo, uma lousa escolar onde os termos "Realidade" e "Verdade" estão riscados sob o olhar de um busto clássico, simbolizando o reducionismo da filosofia moderna.
A soberba do reducionismo: o pensamento moderno apaga a realidade objetiva para erguer castelos de brinquedo sobre o frágil binômio de natureza e cultura.

A modernidade filosófica, frequentemente celebrada como o ápice do esclarecimento intelectual, padece de um reducionismo metodológico que compromete a apreensão integral da realidade. O filósofo F. W. J. Schelling já diagnosticava com precisão que a porta de entrada da filosofia moderna se caracteriza, ironicamente, pela redução de todas as coisas a um nível infantil. Esse fenômeno manifesta-se com clareza na insistência contemporânea em enquadrar a moralidade — o bem e o mal — e a totalidade da experiência humana na dicotomia limitante entre "natureza" e "cultura". Trata-se de um modelo que força a supressão de variáveis complexas e estabelece uma tradição de cegueira analítica que o meio acadêmico, de modo complacente, perpetua.

O edifício dessa infantilização foi erigido por pensadores que, historicamente, recebem uma deferência que não resiste a um escrutínio rigoroso. Thomas Hobbes e Francis Bacon, por exemplo, operam com modelos interpretativos que mutilam a realidade objetiva ao tentarem explicá-la puramente por vetores mecanicistas ou utilitários. Contudo, o ápice desse distanciamento encontra-se na formulação de Immanuel Kant. A epistemologia kantiana propõe a premissa de que as aparências do mundo físico são determinadas pelas categorias de nossa própria razão e imaginação. Kant sugere o cenário de que o universo nos fornece apenas dados caóticos, os quais são organizados por uma estrutura mental subjetiva que, convenientemente, seria universal a todos os homens. Cria-se, assim, uma falácia metodológica: se um indivíduo está enganado em sua percepção, toda a humanidade está enganada conjuntamente. Esta premissa tornou-se, tragicamente, a base para grande parte do que se aceita como ciência moderna.

Engana-se, porém, quem atribui a gênese dessas formulações exclusivamente ao idealismo alemão ou ao pensamento francês. O financiamento e a disseminação de ideias que descolam o homem da realidade empírica encontram fortes raízes no utilitarismo inglês. O caso de Bertrand Russell é sintomático para ilustrar essa clivagem entre o intelecto técnico e a sabedoria. Um matemático de inegável capacidade que, no campo da análise política e moral, exibiu oscilações de proporções catastróficas — chegando a propor, em sua juventude anticomunista, ataques nucleares preventivos, para no fim da vida adotar uma postura de culpabilização integral do Ocidente por todos os males globais. Russell é a prova cabal de que o domínio de abstrações matemáticas não confere, sob nenhuma hipótese, o senso da realidade concreta. É um erro categórico presumir que o domínio estrutural de uma disciplina (como conhecer a gramática inteira de um idioma) garanta a substância do que se tem a comunicar.

Esse esvaziamento da substância em prol da forma atingiu seu paroxismo intelectual no século XX com as correntes desconstrucionistas e estruturalistas, as quais passaram a postular que "tudo é linguagem" e "tudo são signos". Essa moda acadêmica, que seduziu momentaneamente até mesmo ícones da literatura nacional, como Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, ignora a obviedade da condição humana. A realidade objetiva é inexoravelmente anterior à linguagem formal. Um bebê interage de forma pragmática e vital com a realidade — o ato fisiológico da amamentação — muito antes de balbuciar ou conceituar a palavra "mamadeira".

É assombroso notar que a fundação dessa estruturação teórica que diviniza a linguagem remonta à figura de Ferdinand de Saussure. Como satirizado por Malcolm Bradbury em seu hilário "Mensonge", a doutrina que baseia grande parte da linguística moderna fundamenta-se em um livro póstumo construído a partir de anotações fragmentadas e muitas vezes incoerentes de alunos diferentes. É a institucionalização do rigor inexistente.

A restauração da integridade cognitiva exige, portanto, o abandono das muletas do consenso midiático e universitário, não raro convertidos em templos de validação de teses absurdas. A cultura genuína não é fruto de uma mítica "inteligência coletiva" — obras complexas e profundas como as de William Shakespeare jamais poderiam ser escritas pelo consenso de um comitê. A inteligência é, e sempre será, um atributo estritamente individual.

O resgate da sanidade intelectual demanda a postura original de Sócrates: a coragem de dar as costas à opinião pública e aos modismos acadêmicos em favor da percepção sincera da verdade observável. Exige-se do indivíduo no trato com o conhecimento um rigor análogo à confissão religiosa: a obrigação de relatar a verdade que se vê com absoluta seriedade e temor ao erro. Somente sob essa exigência metodológica de sinceridade perante o real é possível superar a ilusão moderna que tenta, de maneira infantil e artificial, confinar a vastidão insondável do universo nas categorias insuficientes de "natureza" e "cultura".

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